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Luciane Maria Molina Barbosa: “Vencer é ultrapassar com o olhar além daquilo que se pode ver”


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EDUCADORES INCLUÍDOS: Queridos Leitores, hoje inicio uma série de matérias inéditas em nosso blog. Quando falamos de Educação Inclusiva, falamos de alunos com necessidades educacionais especiais que estão em fase de inclusão escolar. Mas eu quero mostrar outro lado não percebido. Há professores, diretores, pedagogos e profissionais  com algum tipo de deficiência, atuando em escolas e universidades e que dão grandes contribuições, enriquecendo ainda mais a educação brasileira. E serão as histórias deles que conheceremos na série “Educadores Incluídos”!

 Começo com o empolgante relato da Professora Luciane Maria Molina Barbosa. Dona de mais de 72 diplomas de cursos de formação e aperfeiçoamento e tantos serviços realizados, sou seguro em dizer que sua trajetória ainda dará um lindo filme!

 Com a palavra, a professora Luciane:

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Tocar nas  figuras, ouvir as imagens, sentir o aroma e o sabor das cores foi algo extremamente natural pra mim desde muito cedo. Foi através dos “olhos” de alguém que fui construindo meu vasto repertório de imagens e me interessando por tudo aquilo que faz parte do mundo real, sem que me excluíssem das atividades comuns.

Sempre frequentei o ensino regular, mesmo em uma época que falar sobre “inclusão” era utopia. Quebrei todos os protocolos e nunca fui a “aluna especial” aos olhos daqueles professores e colegas de classe. Meus pais sempre foram os heróis de uma história que ainda está em construção, porque continuam a caminhada comigo num ato de doação pela causa da pessoa com deficiência visual. 

Apesar de ter conseguido ser alfabetizada em tinta, com uso de potentes lupas e letras extremamente ampliadas, num certo momento já não conseguia ler nem escrever. Até aprender o Sistema Braille, com 12 anos de idade, apenas lia e escrevia mais pelos “olhos” e “vozes” que eram emprestadas gentilmente, ora dos meus pais, ora dos colegas de classe e professores.

A visão cada vez menor não reduziu minhas perspectivas de acesso ao conhecimento. Alimentar-me com  informação tornou-se  algo vital. Aprendi o sistema Braille em quatro meses e o mundo transformara em letras, palavras, sentenças, histórias infinitas, lidas por meio do meu próprio esforço. Escolhi como carreira o magistério e formei-me pedagoga.

A ausência de profissionais habilitados para o ensino do Braille em minha região despertou o meu interesse em contribuir para que as pessoas cegas deixassem o conformismo e se libertassem da prisão intelectual a qual estavam submetidas. Através da educação eu poderia comunicar e informar, ensinar e transformar realidades por onde pisasse. Nunca consegui enxergar os limites apesar da cegueira; ultrapassar barreiras significa enxergar potencialidades onde a sociedade rotula incapacidades.

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Minha trajetória profissional teve início com a alfabetização e reabilitação de pessoas cegas. Mais tarde, porém, percebi que a inclusão não é um processo isolado, dentro de um espaço exclusivo e sem desafios. Passei a formar professores e outros profissionais para atenderem pessoas cegas ou com baixa visão no ensino regular. Tornei-me palestrante, consultora e uma estudiosa incansável. Em quase quatorze anos de atuação na educação especial e inclusiva, sinto-me grata por cada desafio encontrado, por cada “olhar” positivo de surpresa ou de reprovação recebido, porque a beleza da vida é compartilhar conhecimento, realizar sonhos e ultrapassar as barreiras visíveis, e até mesmo as  invisíveis, embora tenhamos a certeza de que perceber o mundo através dos sentidos seja algo mágico e, ao mesmo tempo, um ato de coragem que aprendemos diariamente. A inclusão é construída na coletividade, por isso, permita-se adentrar nesse espaço tão desafiador; permita-se atravessar essa estrada, porque juntos podemos enxergar ainda mais longe!

Minha história: Nasci em 08 de dezembro de 1982. Filha da professora Lucia Helena de Souza Molina e do vendedor autônomo Antonio Luciano Faria Barbosa, Guaratinguetá ganharia mais uma moradora naquela manhã de primavera. Diagnosticada com glaucoma congênito, fui submetida a uma cirurgia em São Paulo, com apenas quatro dias de vida. Passei minha infância brincando entre amigos e construindo meu repertório de imagens graças ao esforço incansável dos meus pais em oferecer experiências diversas e que possibilitavam que eu enxergasse os objetos através dos outros sentidos.

Com uma visão muito limitada conseguia apenas enxergar coisas grandes e bem próximas a mim. Apesar disso, nenhuma experiência me foi negada e com 6 anos comecei a frequentar o ensino regular, interagindo junto com as demais crianças. Na época, os conceitos sobre educação inclusiva eram ainda pouco difundidos e minha participação se deu de uma forma muito natural e saudável. Professores que se esforçavam em atitudes acolhedoras, colegas que não faziam qualquer diferença nas brincadeiras e atividades. Quaisquer dificuldades eram facilmente contornadas. Minha mãe também sempre adaptou recursos e métodos para que eu pudesse experimentar todos os momentos.

Fui alfabetizada em tinta, usando caracteres ampliados e potentes lupas. Conseguia bom desempenho nos estudos e sempre gostei de dedicar-me a leituras, embora nunca tenha conseguido ler conteúdos mais extensos por tempo prolongado devido a fadiga visual. Até os 12 anos de idade mantive esse ritmo acelerado de estudos, ora apoiado pela leitura de alguém, ora conseguido pelo próprio esforço.

As dificuldades foram aumentando e não mais conseguia ler as fontes ampliadas, as lupas também já não eram suficientes. A visão havia reduzido e recorri ao aprendizado do sistema Braille por volta de 1996. Foi complicado encontrar um profissional que atuasse nessa área. Na cidade havia uma única professora especialista e que não conseguia dar conta da demanda crescente de alunos cegos vindos de várias cidades da região.

Durante quatro meses frequentei a casa dessa professora em aulas particulares semanais e enfim aprendi, com facilidade, ler e escrever pelo sistema Braille. Ganhei minha primeira reglete com punção (instrumentos para a produção Braille manual) e treinava em casa a escrita de palavras e sentenças. Aventurei-me pela leitura do Pequeno Príncipe e foi assim que consegui ler meu primeiro livro, sem ter que emprestar olhos e vozes de alguém.

Embora tenha tateado uma centena de páginas em relevo, quando cheguei ao final já não conseguia lembrar-me do que havia lido antes e retomei a leitura do início para compreender plenamente o conteúdo da história. À partir daí passei a enxergar um mundo novo e muito significativo pra mim. Continuei na mesma escola até o final do ensino médio e passei a estudar utilizando o sistema Braille. Através de uma campanha feita pelos colegas nessa mesma escola, ganhei a minha primeira máquina Braille. Professores e colegas de classe sempre procuraram encontrar soluções acessíveis e inclusivas, sem diferenciações.

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A escolha de qual profissão seguir não foi um grande dilema. Apesar do desejo em transformar-me em uma profissional da comunicação, decidi pelo magistério, já que um bom professor também deve ser um excelente comunicador. Pretendia, então, que através dessa profissão eu pudesse contribuir para a educação inclusiva e para o ensino das pessoas cegas em minha região.

A ausência de profissionais especializados nessa temática e a presença dessas pessoas na sociedade, fez-me pensar em alternativas para oferecer-lhes oportunidades que talvez não tivessem experimentado durante suas trajetórias acadêmicas. Ainda frequentando o curso Normal em nível médio, prestei meu primeiro concurso público, sendo aprovada em quarto lugar ainda em 2002. Tornei-me funcionária pública, indo atuar numa escola especial em Lorena, numa classe de alfabetização em Braille, onde permaneci até 2009, sendo responsável pela alfabetização e reabilitação de crianças, jovens e adultos cegos.

Formei-me em Pedagogia em 2005 e fiz muitos cursos de aperfeiçoamento e extensão na área da deficiência visual. Ainda hoje continuo estudando. É com alegria que conto mais de 72 diplomas de cursos já realizados até aqui. Em 2006 tive a primeira experiência em educação a distância EaD, participando de um curso sobre tecnologia assistiva e, posteriormente sendo convidada para tornar-me tutora das duas turmas que se formariam posteriormente em 2007. Percebi, então, que assim como meus alunos daquela escola especial, eu também estava muito limitada a um trabalho dentro de quatro paredes e que a inclusão não pode ser solitária.

Por mais novidades que eu pudesse apresentar a esse grupo de estudantes, ao cruzarem o portão para o mundo lá fora, pouco conseguiriam experimentar. O município não estava preparado para recebê-los. Dentro das escolas regulares os professores não sabiam o que fazer nem como agir diante da presença de alunos cegos e começou criar uma certa dependência por aquele espaço seguro e sem tantos desafios da escola especial. Senti que devia ir além, oferecendo cursos de formação para professores, palestras e orientações diversas.

Formei a primeira turma de professores no curso Grafia Braille que ministrei pelo SENAI em Lorena, ainda em 2007. Ofereci inúmeras palestras para escolas e grupo de professores pela região. Durante os próximos três anos também fui professora convidada da UNESP em Guaratinguetá para cursos de extensão em Grafia Braille e informática com Dosvox.

Em 2009 fui convidada para integrar a equipe multidisciplinar que cuidava de questões referentes a educação inclusiva dentro da Secretaria Municipal de Educação de Lorena e afastei-me da sala de aula. Nessa época, porém, aqueles alunos já estariam bem encaminhados, alguns haviam retomado a rotina de estudos no ensino regular, outros concluído sua reabilitação e outros, ainda, conseguira uma recolocação no mercado de trabalho.

Dentro da secretaria de educação atuei junto às escolas regulares e também oferecendo cursos de formação para os professores da rede municipal, tendo formado em quatro edições mais de 80 professores em Lorena, de 2009 a 2012.

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Em 2010 fui aprovada para a especialização em atendimento Educacional Especializado, curso oferecido em parceria com a UNESP e o governo federal. Participei, ainda neste ano, da implantação das salas de recursos multifuncionais em Lorena e após ter concluído o curso, fui convidada para coordenar o AEE, atividade que exerci até dezembro de 2012 em Lorena. Concomitante a esse trabalho, ministrei palestras e oficinas em diversas cidades, sendo elas: Cachoeira Paulista (Instituto Canção Nova), Queluz (Secretaria de Educação), Cruzeiro (FACIC), Itaquaquecetuba (Diretoria de Ensino estadual de educação), São José dos Campos (UNIVAP), Lorena (USP e Academia de Letras), Campo Grande – MS (Instituto de Educação Superior), Taubaté (SESC – Virada Inclusiva), Caraguatatuba (IV Fórum Inclusivo), Aparecida (Congresso de educação inclusiva e AEE( entre outros. Fui vencedora do IV Prêmio Sentidos em 2011, recebendo o troféu júri popular pelos trabalhos prestados em prol da pessoa com deficiência.

Em 2012 fui homenageada pela Câmara municipal de Guaratinguetá e também recebi o troféu Março Mulher, como reconhecimento das atividades realizadas. Ainda em 2012 o Projeto VIDA (Vivenciando a Inclusão, Diversidade em ação) o qual coordenei em Lorena ficou entre os 16 projetos finalistas do estado no III Ações Inclusivas pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SEDPCD). Em 2013 afastei-me de Lorena e passei a atuar oferecendo consultoria e cursos de formação para professores em diversos municípios da região, sendo eles: Tremembé, Cruzeiro, Caraguatatuba, Ubatuba e Guaratinguetá, atividades que começaram em 2013 e tem continuidade em todo ano de 2014. Também em 2013 participei do lançamento do livro Educação Digital – A Tecnologia a Favor da Inclusão,  em Poços de Caldas, sendo responsável pelo capítulo 12, sobre Tecnologia e deficiência visual: Uma relação possível? Na ocasião também ministrei uma palestra para mais de 250 profissionais, no fórum de educação que aconteceu concomitante ao evento do lançamento do livro.

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Em 2014 recebemos, por meio do curso Grafia Braille – “Semeando Leitores e Escritores competentes” oferecido em Tremembé a premiação do IV Ações Inclusivas, pela Secretaria de estado dos direitos da pessoa com deficiência (SEDPCD). Ingressei na segunda especialização pela Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) no curso Tecnologias, Formação de Professores e sociedade. Também fui autora e professora de cursos na modalidade EaD, de 2010 a 2012. Junto Às formações presenciais e EaD já formei mais de dois mil profissionais em todo país, estendendo-se também para Portugal.

Sou colunista do blog Guia Inclusivo (www.guiainclusivo.com) e mantenho o blog pessoal com registros dos meus trabalhos no Espaço Braille (www.braillu.com). Além de formar é preciso informar a sociedade sobre inclusão e acessibilidade para desmitificar certos conceitos difundidos pelo senso comum. No meu blog vocês podem encontrar um histórico sobre minhas atividades. Em 2014 estou ministrando curso em Tremembé (módulo II), em Cruzeiro (Módulo II), em Ubatuba (Módulo I), finalizei em abril duas turmas com 45 alunos em Caraguatatuba. Oferecendo consultoria em Guaratinguetá, para a reestruturação da sala que atende pessoas com deficiência visual e em Caraguatatuba pela Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e do Idoso (SEPEDI), atuando junto a demanda de ações para a acessibilidade através de sinalização e placas em Braille, cardápios em Braille e palestra para projeto sobre empresa inclusiva.

Cursos e consultoria realizados:

Grafia Braille – Semeando Leitores e Escritores competentes

Matemática adaptada e soroban (instrumento de cálculo)

Audiodescrição – Esculpindo Imagens com Palavras

Tecnologia Assistiva – Informática para pessoas com deficiência visual

Educação Inclusiva e Acessibilidade Comunicacional.

Contato: 12 – 991737685 ou 12 – 988117890.

braillu@uol.com.br


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Emílio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista e teólogo. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais. Ator e autor de teatro. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

2 comentários

  1. Pesquisei e encontrei essa riqueza de informações. Parabéns!

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