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O envelhecer do deficiente intelectual, entrevista com Leila Regina de Castro


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Escrito por  Beltrina Côrte

Fonte: PORTAL O ENVELHECIMENTO

Mapeamento das necessidades e principais demandas de atendimento da pessoa com Deficiência Intelectual em seu envelhecimento; formação em geriatria e gerontologia de equipe multiprofissional; metodologias de avaliação; atendimento especializado;

produção do conhecimento sobre envelhecimento e Deficiência Intelectual; constituição de um grupo de estudos sobre envelhecimento precoce e Deficiência Intelectual; e difusão do conhecimento sobre essa temática são algumas das atividades desenvolvidas pela APAE de São Paulo.

No início da década de 2000 houve um evento na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em parceria com a APAE, para tratar do envelhecimento das pessoas com Deficiência Intelectual. Na ocasião, o objetivo era sensibilizar a própria instituição – para criar serviços voltados para esse segmento – e a sociedade. A fim de sabermos o que avançou de lá para cá, entrevistamos Leila Regina de Castro, atual  supervisora do Serviço de Apoio ao Envelhecimento da APAE de São Paulo.

Leila é formada em Educação Física pela ESEFJ (Escola Superior de Educação Física de Jundiaí), tem MBA em Gestão Estratégica no Terceiro Setor pela FMU, é Especialista em Dança e Consciência Corporal pela Universidade Gama Filho, e curso de atualização em Gerontologia pela FMUSP – HC  (Faculdade de Medicina Universidade de São Paulo – Hospital das Clínicas). Além dessa formação interdisciplinar, Leila tem experiência de 25 anos em Deficiência Intelectual e 5 anos com o envelhecimento deste público.

A APAE de São Paulo, uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos, foi fundada em 1961, com o objetivo de promover a prevenção e a inclusão da pessoa com Deficiência Intelectual, além de produzir e difundir conhecimento. Atualmente atua em todas as fases da vida – da infância à velhice. A APAE possui o maior laboratório do País especializado na área e credenciado pelo Ministério da Saúde como Serviço de Referência em Triagem Neonatal. Aliás, foi ela quem introduziu o Teste do Pezinho no Brasil.

Portal do Envelhecimento – De 2000 pra cá, quais foram os avanços da APAE de São Paulo? 

Leila Regina de Castro – No ano de 1998, a APAE de São Paulo inaugurou seu Centro Ocupacional para atendimento a pessoas adultas em processo de envelhecimento. Em 2004, foi realizado o 1º Congresso Brasileiro sobre Envelhecimento e Deficiência Mental, organizado pelo Instituto APAE de São Paulo. Em 2008, foi implementado o Serviço de Apoio ao Envelhecimento da APAE de São Paulo que, em 2010, caracterizou-se como um atendimento diferenciado à pessoa com Deficiência Intelectual. A partir da implementação deste Serviço, houve mudanças significativas na prestação de cuidados a este público, sendo: mapeamento das necessidades e principais demandas de atendimento da pessoa com Deficiência Intelectual em seu envelhecimento; formação especializada em geriatria e gerontologia de equipe multiprofissional; novas metodologias de avaliação; sistematização e validação destes instrumentos; atendimento diário especializado/oficinas terapêuticas; atendimento inicial em casos com suspeita e/ou diagnóstico de demência; produção do conhecimento sobre envelhecimento e Deficiência Intelectual por meio de cursos, livros, palestras, formação para diferentes profissionais, inclusive capacitação de cuidadores; constituição de um grupo de estudos sobre envelhecimento precoce e Deficiência Intelectual; difusão do conhecimento sobre essa temática por meio de participação em eventos nacionais e internacionais e publicação de artigos em importantes revistas do segmento.

Qual foi a maior dificuldade na implantação do Serviço para atender pessoas com Deficiência Intelectual acima de 35 anos? 

A Organização, ao longo destes anos com sua expertise em Deficiência Intelectual, tem aprimorado e ampliado seus Serviços de atenção a pessoa com Deficiência Intelectual em processo de envelhecimento e, com isso, há cerca de dez anos, organizou o Serviço de Apoio ao Envelhecimento da APAE de São Paulo. A maior dificuldade no início do Serviço foi a busca por bases teóricas e modelos de atendimentos especializados não existentes no Brasil, o que demandou buscas constantes destas bases em outros países.

Quais são os serviços que o Serviço oferece atualmente?

Atualmente, realizamos atendimento direto a pessoa com Deficiência Intelectual e ao seu familiar/cuidador, com ações que promovem e previnem a saúde, com foco na manutenção da funcionalidade. O Serviço conta com uma equipe interdisciplinar composta por médico geriatra, assistente social, psicóloga, fonoaudióloga, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, educadores das mais diversas linguagens, cuidadores e apoio administrativo. Para inserção no atendimento, é necessário ter diagnóstico de Deficiência Intelectual e idade mínima e/ou superior a 35 anos, além de apresentar sinais sugestivos de envelhecimento, identificados pela equipe durante a triagem gerontológica.

Qual é a expectativa de vida das pessoas com Deficiência Intelectual no País? 

Atualmente, 23,9% da população brasileira apresenta algum tipo de deficiência (Censo 2010), sendo que 41,81% estão com idade acima de 65 anos. Deste recorte, 4% da população idosa brasileira é formada por pessoas com Deficiência Intelectual, prevalecendo a frequência no gênero masculino (1,5%). Com base nestes dados, podemos sugerir que o aumento de expectativa de vida da pessoa com Deficiência Intelectual é uma realidade no cenário atual, no entanto, vale ressaltar que não existem dados sobre a existência do processo de envelhecimento por tipo de deficiências/recortes dentro da própria Deficiência Intelectual, como a Síndrome de Down, por exemplo.

Quais são os impactos do envelhecimento das pessoas com Deficiência Intelectual? 

As dificuldades encontradas no envelhecimento da pessoa com Deficiência Intelectual podem envolver aspectos da vida social e econômica, bem como a qualidade dos atendimentos na área da saúde, no apoio especializado e na prestação de cuidados aos seus familiares/cuidadores.

Qual é o tipo de deficiência mais comum na APAE de São Paulo? 

Na APAE de São Paulo, a etiologia prevalente é a Síndrome de Down, que envolve planejamento de ações sociais e econômicas para a manutenção da funcionalidade da pessoa com Deficiência Intelectual. Assim, é possível identificar, precocemente, alterações dos declínios funcionais e sinais sugestivos de demência, na melhoria da prestação de cuidados aos familiares e/ou cuidadores, facilitando para a pessoa com Deficiência Intelectual e seu cuidador, o conhecimento de todo o processo de envelhecimento, além de melhor esclarecimento e conscientização da sociedade.

Quais são as políticas públicas específicas para essa população?

Para a pessoa com Deficiência Intelectual em processo de envelhecimento, não temos uma política específica. No entanto, durante seu envelhecimento, é possível ser beneficiada com políticas públicas existentes, como a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, Política de Assistência Social – Sistema Único de Assistência Social (SUAS), Política Nacional de Saúde da Pessoa Portadora de Deficiência e, recentemente, a nova Lei Brasileira da Inclusão, sancionada em 06 de julho de 2015, pela Presidência da República. Além disso, qualquer pessoa idosa com Deficiência Intelectual, com idade igual ou superior a 60 anos, pode se beneficiar pelos direitos da pessoa idosa, através do Estatuto do Idoso.

Naquele evento no início de 2000, o maior temor dos pais com filhos com deficiência intelectual, era quem cuidaria deles após suas mortes. Mudou, ou esse temor se duplicou? 

O cenário permanece o mesmo. Ainda precisamos lidar com a sobreposição do processo de envelhecimento das pessoas com Deficiência Intelectual e seus familiares/cuidadores.

A APAE pensa algo a respeito? 

Atualmente, a APAE de São Paulo, por meio do Serviço de Apoio ao Envelhecimento, atua com ações de prevenção e promoção de saúde das pessoas atendidas. Na abordagem com os familiares/cuidadores, orientações e capacitações sobre o processo de envelhecimento são realizados, bem como esclarecimentos sobre possíveis fragilidades no decorrer deste processo. No atendimento diário, temos como princípio a busca e indicação da rede socioassistencial para os casos com maior fragilidade. Além disso, existe um Serviço (Advocacy) que fomenta políticas públicas de apoio à pessoa com Deficiência Intelectual e, que neste momento, vem discutindo a proposta referente a Residências Inclusivas.

Ainda como prevenção da Deficiência Intelectual, a APAI promove e apoia pesquisas, produz e difunde conhecimento científico, trabalha pela defesa e garantia de direitos da pessoa com Deficiência Intelectual. Além disso, promove a inclusão social da pessoa com Deficiência Intelectual estimulando o desenvolvimento de habilidades e potencialidades que favoreçam e escolaridade e a vida produtiva laboral, bem como, oferecendo atendimento jurídico aos atendidos e familiares acerca dos direitos e deveres da pessoa com deficiência.

Serviço

Para entrar no Serviço da APAE de São Paulo é realizado um estudo sócio- econômico. O encaminhamento pode ser agendado pelo SAP – Serviço de Atendimento ao Público: tel.: (11) 5080-7123/5080-7000. Para mais informações sobre o serviço de Apoio ao Envelhecimento, entre em contato pelo telefone: (11) 5080-7000. Saiba mais em:http://www.apaesp.org.br/OQueFazemos/ParaPessoaComDeficiencia

Intelectual/DaVidaAdultaAoEnvelhecimento/Paginas/default.aspx

 


Emílio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista e teólogo. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais. Ator e autor de teatro. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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