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Vera Garcia: “Eu era uma professora com deficiência incluída em um universo de alunos sem deficiência”


Vera Garcia

EDUCADORES INCLUÍDOS: Queridos Leitores, esta é uma série de matérias inéditas em nosso blog. Quando falamos de Educação Inclusiva, falamos de alunos com necessidades educacionais especiais que estão em fase de inclusão escolar. Mas eu quero mostrar outro lado não percebido. Há professores, diretores, pedagogos e profissionais com algum tipo de deficiência, atuando em escolas e universidades e que dão grandes contribuições, enriquecendo ainda mais a educação brasileira. E serão as histórias deles que conheceremos na série “Educadores Incluídos”!

Dando continuidade, hoje converso com a minha amiga Professora Vera Garcia, pedagoga e blogueira, administradora do conceituado blog Deficiente Ciente e de um novo site de relacionamentos Namoro Poderoso.

Como originou a sua deficiência e como foi aprender a lidar com ela?

Quando tinha onze anos de idade sofri um acidente doméstico. Eu estava brincando em baixo de uma marquise e ela desabou em cima de mim. Fui levada ao hospital, e assim que dei entrada, quase morri. Tive ferimentos muito graves na perna e no braço direito. Após um mês de internação tive uma infecção (gangrena) no braço e, infelizmente, ele teve que ser amputado. Minha perna, graças a Deus, não teve nenhuma infecção. De lá pra cá, foram muitas as histórias de superação na minha vida. Tenho uma mãe fantástica que sempre me incentivou, portanto não tive grandes problemas em relação a minha nova condição. 

O que levou a ser professora e como foi a sua formação?

Desde pequena, mais precisamente aos 7 anos de idade, tinha vontade de ser professora. E dois motivos me deram mais força para lecionar: o primeiro foram os péssimos modelos de professores que tive no primário, eram professores autoritários, arrogantes e prepotentes, enfim, estava frequentando a escola pública na década de 60, um período em que a escola era bem excludente e atendia mais a classe média. O segundo, após o acidente que sofri, tive muita dificuldade em me relacionar com as crianças, e se eu me tornasse professora poderia superar esse problema, pois estaria em contato direto com as crianças e aprenderia a lidar com elas.

Em 1982 comecei a fazer o curso de magistério na Escola Carlos Gomes que fica em Campinas. A metodologia usada na época era de Paulo Freire. Aprendi muito com esse grande mestre. Todos os conhecimentos que aprendi no curso de magistério procurei aplicar dentro das salas de aula. Grandes educadores começaram a surgir nesse período, entre eles foi Emília Ferreiro, uma grande referência para o ensino brasileiro.
Quando comecei a com meus estágios fiquei bem nervosa. Não imaginava qual seria a reação das crianças quando descobrissem que a professora era amputada. Entretanto, no início foi um pouco difícil, mas depois eles acabaram me aceitando. Sempre achei que criança é muito mais fácil de lidar do que com adulto.

Como foram os seus anos lecionando? Encontrou alguma dificuldade?

De todo o trabalho que faço no blog Deficiente Ciente sobre inclusão, a minha experiência, não foi de um aluno com deficiência incluído em uma escola, mas sim, de uma professora com deficiência incluída em um universo de alunos sem deficiência.

Após me formar percorri várias escolas públicas a fim de lecionar. Consegui trabalho em uma escola de educação infantil e uma de ensino fundamental. Iniciei minha carreira como professora eventual, ou professora substituta, como a maioria das pessoas conhecem. Por todas escolas em que passei, primeiro vinha o espanto e a surpresa das pessoas em relação a minha deficiência, depois de um certo tempo, a aceitação. Se havia preconceito, não percebia, pois estava muito envolvida com o trabalho.

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A primeira escola que eu lecionei o ano inteiro foi uma escola rural. A faixa etária dos alunos era de oito a dezesseis anos de idade, aproximadamente. Era uma classe bem diversificada e heterogênea. Estava muito ansiosa e preocupada com a reação deles, pois não sabia como alunos de um bairro rural reagiriam diante de uma pessoa com deficiência. Entretanto percebi que eles ficaram surpresos, mas não chocados. Senti-me aliviada, afinal nunca tinha passado por uma experiência como aquela. Um dos alunos me havia perguntado por que eu não tinha o outro braço e os alunos mais velhos pediram para que ele ficasse em silêncio. Mas aproveitei o momento e disse a eles que me sentiria melhor se contasse o que havia acontecido comigo. Eles me observavam e prestavam atenção em cada palavra que eu dizia. Enfim, contei a eles toda a história do meu acidente. E pude sentir que seus olhares expressaram sentimentos de compaixão e solidariedade. A partir daquele dia em diante nunca mais me perguntaram sobre minha deficiência. Nunca mais me esquecerei daqueles rostinhos.

Com o tempo, e após lecionar em várias escolas, fui conquistando cada vez mais a confiança, o respeito e o carinho dos alunos. Por todas as escolas em que lecionei agia da mesma forma como relatei. Sempre fui muito bem-vinda, procurava ser uma boa professora e nunca tive problema com nenhum aluno, no que diz respeito a minha deficiência. Sempre me trataram com carinho e respeito. E acredito que é dessa forma que um professor sem deficiência deve tratar seus alunos com deficiência.
Em relação aos adultos, enfrentei algumas dificuldades e barreiras. Mas com o tempo e com meu profissionalismo, essa minoria percebeu que seria pura ignorância e preconceito tentar me excluir.

Como você vê o desenvolvimento da Educação Inclusiva hoje no Brasil?

Vejo um crescimento gradativo, onde há muito a ser feito. Precisamos ficar atentos para que a educação se torne realmente inclusiva e não uma educação meramente integradora como é o que está acontecendo em muitas escolas, infelizmente. Acredito que a escola tem que se adaptar a criança com deficiência e não a criança a escola. O que os pais mais desejam é que a comunidade escolar respeite essa diferença, dê oportunidade para esse aluno. Mas por outro lado, lamentavelmente, a formação do professor deixa muito a desejar, no que diz respeito a educação do aluno com deficiência. E sem uma boa formação, como um professor pode trabalhar com um aluno com necessidades educacionais especiais? Além do mais essa formação implica um processo contínuo, onde o professor precisa refletir sobre sua prática para que ele aprimore seus conhecimentos, sua visão de mundo e veja potencial em cada aluno. Todos alunos merecem uma educação de qualidade tenha ele ou não uma deficiência.


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Emílio Figueira

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Mas nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista e teólogo. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais. Ator e autor de teatro. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira é professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva.

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